Na primeira metade do século passado, uma cantora brasileira ganhou o mundo e conquistou os Estados Unidos requebrando e cantando “O que é que a baiana tem?”, de Dorival Caymmi. Foi a ascensão midiática da cultura brasileira representada por Carmem Miranda, que por anos protagonizou o estereótipo da mulher brasileira, embora fosse ela uma portuguesa.
Passados 71 anos da explosão brasileira nos Estados Unidos, dirigentes de instituições filantrópicas sempre à míngua de doadores para suas causas sociais estão a perguntar: “O que é que a Madonna tem?”
Isso porque a cantora símbolo máximo da cultura pop americana de nossos tempos fez um tour pelo eixo Rio-São Paulo, cumpriu agenda com políticos, posou para fotos com celebridades, brilhou no camarote do Governo do Estado do Rio no sambódromo e voltou para casa com cerca de R$ 21 milhões para a sua ong Kids for sucess.
Nada contra seu trabalho. Palmas para a sua preocupação com as crianças que vivem o infortúnio da falta de uma família para ampará-las, vítimas da crueldade de guerras e pobrezas do terceiro mundo. Mas cá pra nós, será que não tem nenhuma instituição brasileira que possa também receber parte desse quinhão?
O administrador de empresas e colunista da Veja Stephen Kanitz afirma que o brasileiro não tem a cultura da filantropia e não sabe doar. Vai mais fundo. Diz que o brasileiro até gostaria de doar mas não sabe a quem. Para isso, criou o site Filantropia.org e criou um ranking das 400 instituições às quais o brasileiro pode confiar seu suado dinheiro. Entre as 400, premiou com o prêmio Bem Eficiente as 10 melhores do país. A Pestalozzi de Niterói ganhou por duas vezes essa láurea, mas a influência disso para a instituição aumentar a arrecadação de donativos foi quase nula.
Com mais de 60 anos de atuação, a Pestalozzi muito poucas vezes foi procurada por alguém querendo contribuir efetivamente para a sua causa social. Salvo pequenas doações e campanhas, não existe aquele filantropo que procure a instituição e abrace a causa, que adote, por exemplo, a manutenção do Centro de Estimulação Precoce para bebês deficientes ou faça algo parecido.
A Madonna conseguiu seus R$ 21 milhões pelo simples fato de que é a Maddona! Só isso. Ninguém está preocupado com o destino do dinheiro doado. Nem mesmo se parte desse dinheiro vai ajudar também crianças brasileiras. Não tenho dúvida de que será bem aplicado. O que se questiona aqui é a razão da doação. Quem deu, quis mesmo é dizer que contribuiu com a causa da Madonna, receber um muito obrigado da rainha pop, posar para fotos e, quem sabe, ganhar uma nota de destaque em uma coluna social. Ou é a empresa preocupada em ficar bem na fita. Colocar no seu “Balanço Social” e limpar a sua barra com a opinião pública. É a filantropia midiática, que começa a render frutos e ser disseminada no Brasil.
Vinícius Martins é jornalista e assessor de imprensa da Pestalozzi de Niterói